QUANDO O BRASILEIRO ACREDITA NA ECONOMIA — E QUANDO NÃO ACREDITA

Uma pesquisa recente identificou dois “Estados de espírito” distintos da confiança do consumidor no Brasil — e o que isso revela sobre desenvolvimento regional.

A confiança do consumidor é um dos termômetros mais sensíveis da economia. Quando as famílias estão otimistas, gastam mais, investem mais, planejam mais — e esse movimento retroalimenta a própria economia que tentam avaliar. Entender os mecanismos por trás dessas oscilações é estratégico para qualquer política de desenvolvimento IPEA 2015. O problema é que os modelos tradicionais tratam essa dinâmica como se fosse linear. A experiência empírica desafia essa suposição: há momentos em que a inflação derruba a confiança com força devastadora, e outros em que o consumidor parece ignorá-la. Foi essa pergunta que nos levou ao Modelo de Markov Switching Autorregressivo (MS-AR) — uma ferramenta que assume que a série temporal pode alternar entre estados distintos, cada um com sua própria lógica de funcionamento Econometrika.

O que é o Índice de Confiança do Consumidor?

Antes de qualquer coisa, é importante entender o que estamos medindo. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) é uma pesquisa mensal feita com famílias brasileiras que pergunta, basicamente: você está otimista ou pessimista com a economia? Sua situação financeira vai melhorar? Você pensa em comprar bens duráveis (geladeira, carro, imóvel)?

O índice varia de 0 a 200. O valor 100 é o ponto de equilíbrio: abaixo, pessimismo; acima, otimismo. Para se ter uma ideia, nos piores momentos da recessão de 2015–2016 o índice chegou a cair bem abaixo de 100, e nos anos pós-pandemia (2023–2024) subiu para cerca de 130 Fecomercio.

Analisamos os dados mensais do Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da Fecomércio-SP entre janeiro de 2014 e junho de 2025. Aplicando o MS-AR, identificamos que a série alterna entre dois regimes estatisticamente distintos. O Regime 1 — Estabilidade Predominante (EP) — domina a maior parte do período, com duração média de 40 meses e ICC médio em torno de 113 pontos. O Regime 0 — Instabilidade Intermitente (MPCP) — surge em picos e transições abruptas, dura em média 4 meses e apresenta ICC médio próximo de 124 pontos

A confiança do consumidor não é uma linha reta que sobe e desce. É mais como um termostato que opera em modos diferentes — e entender em qual modo estamos é fundamental para saber como agir.”
Figura 1. ICC com sombreamento por regime e probabilidades suavizadas (MS-AR). O painel superior mostra a probabilidade de cada regime ao longo do tempo; o inferior, o ICC com faixas coloridas.
Fonte: dos autores

O que é a Linha Preta no gráfico de sombreamento por regime? Ela representa o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) mês a mês, de 2014 a 2025. Para cima: O brasileiro está mais otimista. Para baixo: O brasileiro está mais pessimista. A linha 100: É o equilíbrio. Abaixo disso, o pessimismo predomina (como ocorreu na crise de 2015-2016). O que é o Sombreamento Rosa? As áreas sombreadas representam o Regime 1 (Estabilidade Predominante). Onde está rosa: A economia está no seu estado “normal” ou estável. A confiança muda de forma lenta e previsível. Note que a maior parte do gráfico é rosa, pois esse estado dura, em média, 40 meses. Onde está branco (sem sombra): É o Regime 0 (Instabilidade Intermitente). São momentos de “sustos” ou euforia rápida. O “Paradoxo” do Gráfico  os picos mais altos da linha preta (quando o otimismo está lá no alto) costumam acontecer nas áreas brancas (sem sombra). Isso significa que o otimismo exagerado no Brasil geralmente é volátil e passageiro (dura cerca de 4 meses). Exemplos disso no gráfico são a euforia após as eleições de 2018 e a retomada logo após o auge da pandemia em 2021. O resultado é contraintuitivo à primeira vista: o regime de menor previsibilidade aparece associado a níveis mais altos do ICC — ou seja, surgiu em momentos de otimismo rápido (picos), mas esse otimismo é volátil e de curta duração. capturando a euforia pós-eleição de 2018 e a retomada pós-pandemia de 2021, intensas, mas passageiras. Em turbulência, o consumidor se ancora no tangível: emprego, salário, crédito. No regime estável, o que mais corrói a confiança é a combinação de inflação percebida com narrativa adversa na mídia. Já o regime estável predomina na maior parte do tempo, incluindo fases de queda gradual e recuperação lenta.

A segunda etapa da pesquisa investigou quais fatores se associam ao ICC em cada regime, utilizando Análise de Componentes Principais (PCA) para sintetizar 11 variáveis e regressões ponderadas (WLS) separadas por regime. No regime estável, a confiança responde positivamente à geração de emprego e negativamente — de forma robusta — ao noticioso econômico adverso e à pressão de preços e custo do crédito. No regime instável, o efeito do noticioso perde robustez estatística; o que ancora a confiança são variáveis concretas e imediatas: emprego e meios de pagamento.

Figura 2. Coeficientes WLS por regime (EP e MPCP). Barras sólidas = coeficientes robustos (HAC e HC3). EP: PC1 (+) robusto; PC3 e PC4 (−) robustos. MPCP: PC1 e PC2 (+) robustos. R² ponderado: 0,313 (EP) e 0,272 (MPCP).
Fonte: dos autores

Um dado recente da Datafolha — publicado pela Folha de São Paulo em março de 2026 — torna essa discussão especialmente relevante. Apesar dos indicadores macroeconômicos em trajetória de crescimento, 46% dos brasileiros afirmaram que a situação econômica piorou nos últimos meses; apenas 24% disseram que melhorou. Esse paradoxo não é irracional — é o comportamento esperado quando o país opera no regime EP com fatores adversos ativos: inflação percebida elevada, aprox. 70% das famílias endividadas e narrativa econômica predominantemente negativa. O consumidor sente a economia pelo bolso e pela tela do celular, não pelo boletim do Banco Central.

Em períodos estáveis, ações que reforcem o emprego formal e sinalizem controle da inflação têm maior impacto — e a comunicação econômica importa: narrativas adversas corroem a confiança mesmo quando os fundamentos são razoáveis. Em turbulência, a prioridade é proteger renda e emprego imediato. Para regiões periféricas, com mercado formal menor e renda mais vulnerável, amortecedores institucionais têm papel estratégico. O ICC, contudo, mede percepções do mercado formal — trabalhadores informais e regiões de baixa densidade aparecem de forma indireta.  E há uma distinção que nenhum índice resolve sozinho: a diferença entre crescimento do PIB e redução efetiva da desigualdade — entre os meios e os fins, na distinção de Celso Furtado.

Os resultados têm caráter explicativo e associativo — não estabelecem relações de causalidade.


Gleison Pereira Leocadio é formado em ciências contábeis, pós-graduado em Gestão Financeira, MBA em Controladoria e Finanças e MBA em Ciência de Dados e Analytics. É Auditor Interno da Caixa Econômica Federal

Tiago Almeida de Oliveira, Professor do Departamento de Estatística da UEPB, Visitor Fellowship UTHealth Houston e Professor da Pós-graduação em Desenvolvimento Regional, também da UEPB.

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