Escrito por: José Gomes Ferreira
Temos muito para aprender, mitigar e adaptar na resposta à crise climática. Qualquer ceticismo que permaneça é sinônimo de irresponsabilidade, incúria e descumprimento dos deveres de estado e cidadania. Talvez alguns eventos no semiárido se enquadrem ainda nas regularidades da seca e chuvas, o que permite retratar os eventos extremos sem a dimensão do risco que acarretam ou mesmo celebrando as fortes chuvas. Só que o grande problema da crise climática é a incerteza que tudo pode mudar de um momento para o outro, a violência e a imprevisibilidade exige preparação da resposta.
Servem as palavras introdutórias de reflexão ao episódio que passei, em outro contexto geográfico e climático, durante a recente visita a Portugal. No final de janeiro estava prevista a minha participação em duas tertúlias sobre o histórico de poluição do rio Lis, que em 2012 foi o tema do meu doutorado, a realizar na região de Leiria. Nessa sequência, indo de Lisboa viajo para Leiria no dia 28 de janeiro, sem saber a ocorrência de nenhum problema. Foi relatado um atraso nos ônibus no terminal de Sete Rios, mas foi a única informação divulgada. Após a parada nas Caldas da Rainha, seguindo pela autoestrada A8, gradualmente demos conta da dimensão da tragédia. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) tinha colocado a região em alerta vermelho, com possibilidade de ocorrência de muita chuva e vento com rajadas superiores a 140 kms. Provavelmente, a banalização dos alertas, com repetidas cores e poucas medidas, foi responsável pela menor atenção deste sério alerta vermelho associado à tempestade Kristin.
Ao chegar à cidade da Marinha Grande, município vizinho a Leiria, a destruição era quase total, com quilômetros e quilômetros devastados do chamado Pinhal de Leiria (ou Pinhal do Rei), outrora plantado por D. Dinis para suster os ventos fortes vindos do mar. Telhados de habitações, empresas industriais, supermercados, outros edifícios públicos e privados revelavam mais ainda um grau de destruição assustador.

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A primeira coisa que fiz ao chegar a Leiria foi tentar sair da cidade, até pelo fato dos hotéis, restaurantes e todos os estabelecimentos estarem encerrados. Mas as várias tentativas para deixar a cidade nas primeiras horas foram infrutíferas. Os ônibus da Rede Expresso e Flixbus estavam funcionando, mas a resposta era sempre a mesma: os motoristas não estão autorizados a vender passagens, somente podem ser adquiridas na bilheteira ou pela Internet. Acontece que na Rodoviária de Leiria a cobertura abateu, destruindo tudo, e a Internet não funcionava. Não havia energia, nada funcionava. Agradeço ao hotel D. Dinis, creio que na pessoa dos seus proprietários, o fato de me terem aceite, mesmo sem reserva, sem dinheiro físico e sem saber o que fazer da vida. Foi a minha salvação em cerca de 48 horas bastante tensas que passei na cidade. Sem comunicações não consegui falar com o meu contato local, sem energia e estabelecimentos funcionando a alimentação foi uma questão delicada, suportada da forma possível com o fato do citado hotel providenciar café da manhã. No dia 29, consegui comprar um bom sanduíche e a proprietária do hotel deu-me fruta.

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Geri da melhor forma o carregamento dos celulares. No final do dia 29, recebi uma chamada da terra a dizer que por lá estava tudo bem e à noite, antes da reposição da energia no centro de Leiria, consegui acessar à Internet, através de roaming no chip brasileiro, pelo que adquiri a passagem para sair de Leiria na manhã seguinte. Entretanto, cerca das 21:30, naquela área já funcionava a energia e as comunicações. Algumas áreas, passado quase 30 dias, ainda não têm restabelecidos esses serviços.
Em janeiro e fevereiro, Portugal foi afetado por várias tempestades. A tempestade Kristin provocou 16 mortes e deixou muita destruição por onde passou. Seguiram-se inundações também de grau preocupante, inclusivamente no Vale do rio Lis, porém, o furacão Kristin foi de grau nunca visto, com rajadas identificadas pela Força Aérea Portuguesa de 178 km/hora, superando as rajadas do furacão Leslie em 2018. A forma sistemática como o país vem sendo afetado por tempestades com grande potencial destrutivo exige do país maior preparação. As primeiras horas em Leiria foram de abandono. Não sei como passaram a noite alguns viajantes e como se alimentaram. Somente após ser retomada a energia e as comunicações no centro da cidade é que se registrou mobilização dos serviços públicos. Antes disso apenas se avistavam duas viaturas da polícia e helicópteros das televisões.

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A partir daqui as prefeituras, com o apoio do governo, têm feito um trabalho notável. Porém, também ficou claro que, apesar do alerta vermelho, não havia qualquer preparação, não havia um plano para atuar junto das pessoas, não haviam estruturas intermédias de coordenação. As próprias empresas de transporte poderiam levar passagens pré-impressas em outras localizações. A questão climática exige planejamento e coordenação com os agentes econômicos, com as comunidades e coletividades. É necessário repensar o próprio conceito de defesa civil. As Forças Armadas foram chamadas posteriormente, dando um importante contributo, mas mostra-se necessário garantir estruturas de proximidade que garantam as comunicações, abrigo, alimentação e apoio psicológico. A temática da solastalgia tem sido colocada por Glenn A. Albrecht e outros autores, na pesquisa climática para descrever o sofrimento psicológico vivido sob condições ambientais adversas com caráter destrutivo no ambiente local.

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A dependência da Internet e da rede digital é grande, necessitamos de pensar alternativas para os tempos do fim do mundo. Telefones satélite ou Internet igualmente por satélite ajudariam, mas e os antigos radioamadores? O porta-a-porta é sempre uma alternativa. O município de Leiria durante as primeiras horas colocou alguns comunicados nas redes sociais. O problema é que seriam poucos os que conseguiriam ter acesso. Gerou-se uma preocupação posterior com a necessidade dos órgãos públicos, designadamente as prefeituras e Juntas de Freguesia (equivalem a subprefeituras) serem dotadas de geradores para enfrentar estes fenômenos e qualquer apagão na rede. Será um equipamento benéfico para o futuro, desde que não se caia em desleixo.
A forma como telhados e janelas foram afetados deixa-nos desafios na arquitetura das moradias e outros edifícios. Muitas empresas, cujas instalações eram majoritariamente construídas em vidro e chapa metálica, ficaram reduzidas a escombros. A recuperação emergencial está em curso, mas o processo de reposição da normalidade será lento, com risco para a perda de postos de trabalho e com custos elevadíssimos. A expectativa é de apoio da União Europeia, o que para já se destaca é a liderança de alguns políticos locais e a onda de solidariedade nacional e internacional, com centenas de voluntários envolvidos nas ações de limpeza e reposição da energia.
José Gomes Ferreira é professor visitante no Programa de Pós-graduação em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e professor colaborador no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. Email: jose.ferreira@outlook.com