A NOVA CULTURA DA ÁGUA

Ainda pouco conhecida e debatida no Brasil, a Nova Cultura da Água (NCA) deveria estar mais presente em eventos da academia e dos movimentos sociais referentes à água, meio ambiente e direitos humanos. Urge repensar como as nossas águas são tratadas. No caso do Brasil, continuamos a ver os rios e os lagos cada vez mais poluídos, fazendo com que se tornem impróprios para atender às necessidades dos seres humanos, como resultado de uma relação desordenada com os nossos mananciais.

A nossa primeira intenção com este pequeno texto é divulgar o conceito da NCA na esperança de que governos e agentes sociais que lutam por mudanças percebam a centralidade da água para as culturas, economias, espiritualidades e saúde dos povos, repensando e, quem sabe, revertendo a relação que a nossa sociedade capitalista/urbano/industrial desenvolveu no último século com as nossas águas, já que “Los desechos de la actividad industrial han tomado desde entonces a los ríos por asalto, hasta hacer de ellos las cloacas universales del Planeta, y del mar el colector universal de todas las redes de cloacas”. Além disso, os rios e lagos estão cada vez mais direcionados para servir ao mundo urbano, sendo represados e controlados. Quando isso acontece, disturbam a ordem no mundo rural para atender aos interesses econômicos e políticos dos moradores das grandes cidades.

A Nova Cultura da Água é um conceito criado na Espanha na década de 1990, resultado do encontro de estudiosos da questão da água e que estavam incomodados com a sua gestão e com o Plano Hidrológico Nacional que estava sendo proposto naquele momento para aquele país. Um de seus objetivos é educar a sociedade para um novo olhar sobre este elemento natural, juntando a gestão técnica com uma visão multidimensional, segundo os seus pensadores. Podemos até afirmar que seria uma tentativa de retorno à ênfase que os povos antigos colocavam sobre a água como um dos elementos primordiais para a manutenção da vida e, por isso mesmo, respeitada  de forma central na cultura daqueles povos. São inúmeras as cosmogonias em que a vida emerge da água. Embora não seja uma nova visão sobre este elemento natural, a novidade está em que a NCA é proposta por acadêmicos que buscam unir a técnica  e a gestão com uma visão integral sobre os mananciais.      

A busca por enfatizar a água para além de um recurso a ser explorado encontra um grande obstáculo com a sua mercantilização. A visão moderna de que a água é uma mercadoria impede que ela seja explorada de forma sensata e não destrutiva. Um exemplo categórico são os rios e lagos que, por causa de uma superexploração, começam a secar, deixando comunidades órfãs não apenas da água, mas também de um modo de vida relacionado à sua presença, mesmo quando ela não é abundante. Conglomerados econômicos nacionais e internacionais protagonizam um novo cenário com relação à água com a sua comodificação no Brasil e no mundo e, diante deste quadro, a NCA pode se tornar um instrumento para confrontar esta visão e chamar a atenção para este fato.

Rio Jaguaribe na altura do Bairro Cruz das Armas, em João Pessoa-PB.
Fonte: Acervo do autor.

Um outro aspecto sobre a água que NCA nos remete é sobre a nossa relação subjetiva com a água. A memória afetiva de prazer que carregamos dos momentos de lazer proporcionados por ela, seja com um banho de chuva, de rio ou mesmo pela simples dessendentação em um dia de calor é imensurável. A nossa relação com a água não é apenas utilitária, ela atravessa as nossas sensações mais inatas, guardando em nossa memória mais primeva o prazer proporcionado pelo seu contato. “En ese sentido, el poder emocional que nos transmite el agua tiene una magia especial”. 

Devemos começar a entender que a água está para além de um recurso para a produção de riquezas. Ela também é produtora de felicidade. Basta lembrar que “É para onde tem água que milhões de pessoas se dirigem em seus momentos livres ou nos feriados, como se algo lhes sussurrasse que lá é um endereço certo para uma paz perdida na correria das cidades”.

A NCA pode fazer com que a mercantilização da água seja repensada a partir do entendimento de que esta não é uma mercadoria, mas está intimamente ligada as várias dimensões da vida do ser humano para além da sua materialidade. A “morte” dos nossos rios e lagos é a morte não apenas das comunidades e dos seres vivos que vivem em seu entorno, mas de formas de vivenciar o cotidiano em que a água supre uma dimensão subjetiva e nos carrega para o entendimento de que não estamos separados na natureza, mas nela imersos.


Flávio José Rocha da Silva é doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP com pós-doutorados no Instituto Energia e Ambiente da USP e no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFCG. Nos últimos 16 anos vem pesquisando sobre a privatização da água e o seu acesso como um direito humano através do mínimo vital de água gratuito. E-mail: flaviojoserocha@gmail.com 

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