Escrito por: Ledilson dos Santos Gutierre e José Gomes Ferreira
A degradação ambiental se intensificou com a modernidade e industrialização, tornando evidente a necessidade de uma nova ética global e novos arranjos a partir do multilateralismo e da ação dos governos locais. A segunda metade do século XX, especialmente os anos 1960 e 1970, marcaram a internacionalização do debate ambiental. Intelectuais e cientistas reforçaram as discussões sobre preservação e conservação ambiental, paralelamente à pressão pelo crescimento econômico e desenvolvimento de tecnologias. O equilíbrio em um contexto de capitalismo acelerado e depredador tem sido difícil de manter.
Com a mudança climática não foi diferente. A crise atual e global, marcada pelo aquecimento acelerado do planeta causado por ações antrópicas, como a queima de combustíveis fósseis e desmatamento que causa o efeito estufa, alertam para a urgência do problema, que vem impactando sobre a economia, sobre a mobilidade e, de forma geral, sobre o cotidiano das pessoas, podendo colocar em risco as suas habitações, as empresas e a própria vida. Ainda assim, os efeitos na saúde mental causados pelas mudanças climáticas e ambientais somente agora começam a ser considerados. Em causa está, sobretudo, o próprio dramatismo da destruição registrada com a ocorrência de eventos extremos e como tudo isso impacta nas famílias, designadamente na perda de entes queridos e de bens que em muitos casos levaram uma vida a construir.
Considerando o histórico da interação homem-natureza, ainda é muito recente a discussão sobre o impacto destas catástrofes na saúde mental quando agrava doenças psíquicas, como ansiedade e depressão, bem como a intensificação de sentimentos de medo e sofrimentos associados à possibilidade de perdas. A saúde mental das pessoas e comunidades atingidas por grandes secas, inundações severas, alagamentos, ondas de calor, furacões, chuvas torrenciais, degelo polar, aumento do nível do mar etc, por muito tempo não foi objeto de observação, estudo e pesquisa científica até o início dos anos 2000.

Fonte: captura de tela do alerta INMET
O tema vem ganhando espaço em debates e pesquisas, assim como na mídia, repercutindo resultados de publicações científicas, como dando conta das ações de auxílio dos governos em situações de catástrofes. A título de exemplo, em um artigo publicado no dia 26 de novembro de 2025, a CNN Saúde abordava o tema destacando um artigo publicado na Nature Mental Health, que apontava para o fato desse sofrimento funcionar “como um marcador sensível do desgaste psíquico provocado pela crise ambiental e aparece em sintomas como irritabilidade, angústia, distúrbios do sono e sensação persistente de ameaça”.
Em um exemplo das ações de resposta à tempestade Kristin, que afetou a região centro de Portugal, “Leiria cria equipa de 21 psicólogos para apoiar população após depressão Kristin”. Enquanto isso, o município vizinho de Pombal lançou o e-book “A noite em que o vento falou alto” para ajudar famílias a falar sobre emoções e a pensar sobretudo nas crianças.
Na perspectiva da academia, em 2003, Glenn A. Albrecht, filósofo ambientalista australiano que mais se destaca na pesquisa que relaciona as mudanças climáticas e saúde mental, desenvolveu o conceito de solastalgia para descrever o sofrimento psicológico vivenciado pelas pessoas causado pela degradação ambiental do lugar onde se vive e convive.
Apesar da discussão ter ainda um caminho a percorrer, o conceito de solastagia cunhado por Albrecht até ao momento presente nos confere um maior significado e clareza à angústia induzida pelo ambiente. Etimologicamente, a palavra solastalgia é composta por solacium (do latim), que significa consolo ou conforto, e, algia (do grego), que representa dor ou sofrimento. O artigo científico acima citado, publicado na citada revista Nature Mental Health e da autoria de Lucas M. Marques e Sara B. Franco, coloca a questão ainda de forma mais enfática no próprio título, que a “A solastalgia é como um sinal de alerta para a saúde mental em um ambiente em transformação”
A palavra consolo pode ser entendida como uma forma de amparo ou alívio (consolação) diante de eventos angustiantes. Por um lado, diz respeito ao apoio emocional que alguém recebe em momentos de dor, angústia ou perda, ajudando a amenizar o sofrimento. Por outro, também pode se referir àquilo que proporciona esse conforto (um lugar, por exemplo) funcionando como um suporte que ajuda a enfrentar a desolação.
Portanto, nas palavras de Albrecht e colegas, solastalgia é “the pain or distress caused by the loss of, or inability to derive, solace connected to the negatively perceived state of one’s home environment” (tradução livre: “dor ou angústia causada pela perda ou incapacidade de derivar consolo conectado ao estado percebido negativamente do ambiente doméstico”). O autor relaciona diretamente o sofrimento do ecossistema com o sofrimento humano, que se manifesta como um sentimento de saudade de casa, do seu lar, enquanto ainda se vive nele, devido à degradação do ambiente familiar.
Na verdade, o conceito apresenta-se como sinônimo do conceito luto ecológico (ecological grief em inglês), esse de criação mais recentes e associado a Ashlee Cunsolo e Neville Ellis, especialmente no artigo de 2018 “Ecological grief as a mental health response to climate change-related loss”. Nele os autores definem o luto ecológico como “the grief felt in relation to experienced or anticipated ecological losses, including the loss of species, ecosystems and meaningful landscapes due to acute or chronic environmental change ”(em traduçaõ livre: “o luto sentido em relação a perdas ecológicas vivenciadas ou previstas, incluindo a perda de espécies, ecossistemas e paisagens significativas devido a mudanças ambientais agudas ou crônicas”).
A análise do conceito é realizada sob três principais contextos: i) luto associado a perdas ecológicas físicas, como a degradação ou morte de espécies, ecossistemas e paisagens fomentadas pelas mudanças climáticas; ii) luto associado à perda de conhecimento local e ecológico tradicional, bem como da identidade ambiental de pessoas que mantêm estreitas relações de vida e trabalho com o meio ambiental natural; e, iii) luto associado a perdas futuras previstas, antecipando o sentimento de luto por mudanças ecológicas que ainda não ocorreram, que se estende ao luto por futuras perdas culturais, de meio de subsistência e modos de vida.
Há ainda o conceito de ecoansiedade, o qual a American Psychology Association (APA) definiu em 2017 como o medo crônico de sofrer um cataclismo ambiental que ocorre ao observar o impacto, aparentemente irrevogável, das mudanças climáticas gerando uma preocupação associada ao futuro de si mesmo e das gerações futuras.
Seja solastalgia, luto ecológico ou ecoansiedade e, apesar das pesquisas da relação entre as mudanças climáticas e saúde mental estarem aumentando, especialmente no âmbito multidisciplinar, ainda é necessário uma maturação acadêmica com desenvolvimento teórico e empírico maiores para melhor explicar, especificar e (se for o caso) diferenciar, os fatores de cada conceito que afligem negativamente a mente humana diante dos eventos extremos oriundos da crise climática que assolam o planeta.
Ledilson dos Santos Gutierre é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E-mail: ledilson.gutierre@ufrn.br;
José Gomes Ferreira é professor visitante do Programa de Pós-graduação em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e professor colaborador no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. Email: jose.ferreira@outlook.com.
A publicação contribui de maneira muito relevante para compreendermos como a crise climática impacta diretamente a saúde mental e o cotidiano das pessoas. Textos como este nos ajudam a enxergar com mais clareza a gravidade dos eventos extremos e a necessidade urgente de reflexão e ação coletiva. Parabéns.
A atual situação de perda ecológica e preocupações psicológica com a degradação do q estávamos perdendo são assuntos pertinentes ao tema abordado, muito bom.