Escrito por: Marco Túlio Mendonça Diniz
Em um mundo cada vez mais digital, as histórias mais antigas ainda estão escritas em rochas e no relevo. Um novo e fascinante artigo na revista Geoheritage, intitulado “Geodiversity, Pareidolia and Geomythology: A Cultural Reading of Granite Rocks in Brazil’s Northeast Region” (Geodiversidade, Pareidolia e Geomitologia: Uma Leitura Cultural de Rochas Graníticas na Região Nordeste do Brasil), nos convida a olhar para as paisagens do Nordeste brasileiro a partir das geoformas em rochas, reconhecendo-as como suportes de narrativas culturais vivas.
O estudo, conduzido por pesquisadores brasileiros, revela como o relevo granítico da região moldaram as crenças e os mitos locais, estabelecendo uma relação entre a geologia, a mente humana e a identidade cultural. A pesquisa é assinada pela Profa. Dra. Larissa Silva Queiroz (UERN), sob orientação do Prof. Dr. Marco Túlio Mendonça Diniz (UFRN) e da Profa. Dra. Jacimária Fonseca de Medeiros (UERN), em colaboração com o Prof. Dr. Rafael Xavier de Albuquerque e a Profa. Dra. Alessandra Gomes Brandão (UEPB). Para entender essa relação de forma concreta, o recorte espacial escolhido abrange os municípios situados nas regiões das Serras do Agreste e do Oeste, no Rio Grande do Norte, além de parte do município de Araruna, na Paraíba.
Juntos, os pesquisadores apontam que as rochas graníticas, tão presentes no cenário nordestino, além de serem registros de milhões de anos de processos geológicos e geomorfológicos, também se tornaram referência simbólica e afetiva, integrando mitos, memórias e identidades regionais.

Fonte: fotografia cedida por Marco Túlio Mendonça Diniz
Os Pilares da pesquisa: geomorfologia e percepção
A paisagem, nesse contexto, é interpretada por meio da Geodiversidade, que diz respeito à variedade de elementos geológicos que compõem o ambiente natural. No Nordeste, essa geodiversidade se manifesta em imponentes afloramentos de granito, cujas formas muitas vezes despertam curiosidade. É nesse ponto que entra a pareidolia, entendido como fenômeno psicológico que leva o observador a identificar figuras conhecidas em formas aparentemente aleatórias. A pareidolia transforma uma rocha comum em um “monstro”, um “gigante adormecido” ou um “rosto de santo”.
É dessa interação entre a materialidade da geoforma e a imaginação humana que nasce a Geomitologia, campo que investiga as origens geológicas-geomorfológicas de mitos e lendas. Essa perspectiva investiga como eventos geológicos extremos (como terremotos ou inundações) ou feições geográficas notáveis (como montanhas ou formações rochosas incomuns) deram origem a contos populares, crenças e narrativas culturais.

Fonte: fotografia cedida por Marco Túlio Mendonça Diniz
Antes de ser batizada de Pedra da Caveira, era conhecida como Pedra do Anselmo, em referência a um morador local que a utilizava como moradia. Segundo os guias, após a sua morte, os moradores locais começaram a ver uma semelhança entre a sua aparência e a forma «esquelética» da rocha, consolidando a imagem da caveira como uma marca simbólica do local.
Os granitos do Nordeste, turismo e desenvolvimento local
A pesquisa mostra que não se trata simplesmente de projetar fantasias sobre o relevo, mas de reconhecer que comunidades construíram parte de sua identidade cultural a partir dessas interpretações simbólicas da paisagem. As rochas tornam-se personagens que guardam histórias de origem, episódios de encantamento, ensinamentos morais ou relatos de tempos remotos. São, portanto, tão monumentais do ponto de vista cultural quanto geomorfológico.
Ao discutir essas relações, o estudo também enfatiza a importância da Geoconservação. Preservar as rochas não significa somente conservar o patrimônio natural: significa proteger formas de ver, sentir e narrar o mundo que foram transmitidas ao longo de gerações. Além disso, essa perspectiva aumenta as possibilidades para a Geoeducação e o Geoturismo. Quando visitantes são apresentados às rochas e relevos como elementos de histórias vivas, a experiência da paisagem torna-se mais envolvente, mais sensível e mais significativa.
O geoturismo é mais uma modalidade de turismo de natureza que proporciona desenvolvimento local sustentável, tão difundido no Parque Estadual da Pedra da Boca.
Conclusão: um novo olhar sobre a paisagem
Ao aproximar Geodiversidade, Pareidolia e Geomitologia, o estudo traz uma nova perspectiva de como enxergamos a própria paisagem. Em vez de percebê-la como pano de fundo, algo estático ou meramente físico, somos convidados a reconhecê-la como uma dimensão viva da cultura. As rochas graníticas do Nordeste, moldadas ao longo de milhões de anos, tornam-se testemunhas de histórias, crenças, medos, afetos e modos de habitar o mundo.

Fonte: fotografia cedida por Marco Túlio Mendonça Diniz
Diz-se que dentro deste castelo vive um príncipe/princesa e que muitas das crianças da região cresceram com a esperança de encontrar a chave mística que abriria as portas deste edifício imaginário.
Logo, pensar a paisagem como patrimônio cultural amplia a discussão sobre preservação, pois o que está em jogo não é somente o valor geológico-geomorfológico desses elementos, mas também a continuidade de modos de pensar e imaginar o território. Ao destruir uma rocha interpretada como “a casa da princesa”, “a Pedra da Caveira” ou “Pedra da Boca”, não se remove apenas um objeto natural: rompe-se uma relação simbólica que estrutura a memória coletiva das comunidades que habitam no entorno.
Assim, o estudo é um convite para enxergar a paisagem com mais atenção e reconhecer que, muitas vezes, a forma como entendemos o lugar onde vivemos nasce do encontro entre ciência, cultura e experiência cotidiana.
Marco Túlio Mendonça Diniz é professor associado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, professor visitante do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da UEPB e Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq.