ALGODÃO AGROECOLÓGICO EM REGIME DE CONSÓRCIO COMO ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL

A crise do algodão, produto agrícola considerado no Nordeste como “ouro branco”, teve enorme impacto na região. Até ao início da década de 1970 a sua produção e comercialização foi importante para os estados do Nordeste. A manutenção de práticas tradicionais de manejo, a concorrência internacional, a praga do bicudo-do-algodoeiro (inseto devastador no cultivo do algodão, detectado pela primeira vez em 1983) e as secas frequentes estão entre as principais causas do declínio da produção. Já durante a Grande Seca de 1877 a 1879 se fez sentir uma enorme crise no setor, na época em consequência do fim da guerra civil nos EUA, que permitiu aos mercados do Hemisfério Norte voltarem a abastecer-se com algodão estadunidense.

Na transição do último século, foi necessário aguardar mais de duas décadas para a recuperação produtiva do algodão. Entre os fatores potenciadores destacam-se as transformações na agroecologia e o fomento da agricultura familiar com a criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), medidas que alteraram não apenas o subsetor do algodão, mas a agricultura de base familiar e os papéis sociais valorizados no espaço rural tradicional.

A nossa pesquisa teve início no contexto da disciplina Seminários, da grade do mestrado do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba, partindo, primeiro, de um recorte da microrregião do Brejo paraibano, situada no Planalto da Borborema, próximo à cidade de Campina Grande. Os resultados prévios foram apresentados em um evento internacional da qual se aguarda a divulgação do artigo. Na fase seguinte, sentiu-se necessidade de saber mais sobre o setor, pelo que se alargou o âmbito territorial e quisemos ouvir igualmente alguns dos atores protagonistas do processo, designadamente junto da Embrapa Algodão e de lideranças dos produtores. 

Figura 1. Cultivo de algodão em regime de consórcio
Fonte: fotografia cedida por Edigleuma Coelho (Associação do Assentamento Zé Marcolino – ASSAZEM)
Um pouco o histórico da recuperação da produção do algodão pela Embrapa

A Embrapa Algodão, desde a década de 1970, vem desenvolvendo pesquisas na área contribuindo para a cotonicultura nacional, buscando a elevação da qualidade das fibras, novas cores, novas cultivares resistentes às pragas e doenças e incentivando o cultivo orgânico e agroecológico. Nos últimos anos trabalhou em parceria com instituições de assessoria e agricultores familiares da região semiárida, incentivando e apoiando a produção de algodão agroecológico. A aposta tem sido em empreendimentos e parcerias na perspectiva de fortalecer a produção de algodão orgânico e agroecológico envolvendo a agricultura familiar de forma sustentável.

A análise que realizamos nos conduz a novos questionamentos e discussões transversais ao processo produtivo, conectando fatores sociais, ambientais e econômicos que concorrem para o fomento de dinâmicas de desenvolvimento regional. Com a particularidade de tudo acontecer a partir de dinâmicas locais específicas nas quais o fator humano, o aprendizado técnico dos órgãos públicos, o saber tradicional e a visibilidade de novos papéis sociais geram novas dinâmicas produtivas, por sua vez conectadas a contextos exportadores internacionais. 

Atuais eixos de expansão da produção do algodão

Os resultados permitem-nos identificar um conjunto de eixos absolutamente decisivos na atual expansão do algodão e quanto ao seu papel no desenvolvimento regional e local.

i) Preocupação em proteger o meio ambiente e promover o desenvolvimento econômico 

Em 1992, as preocupações ambientais globais trazidas ao Brasil com a organização da ECO 92 colocaram a pauta ambiental e da sustentabilidade no topo da agenda pública, impactando sobre vários setores. Fortalecendo este enquadramento contribuíram fatores como o acesso à terra por parte de comunidades historicamente excluídas, a promoção de práticas sustentáveis, assim como a promoção do Plano Brasil sem Fome, que nos remete para a segurança alimentar das famílias, no sentido da redução da sua vulnerabilidade, promovendo igualmente a multifuncionalidade dos territórios e a proteção dos ecossistemas.

ii) Reconversão de culturas e práticas agrícolas tradicionais 

O papel dos órgãos de pesquisa e assistência técnica rural tem sido um fator decisivo na reintrodução do algodão agroecológico, geralmente em consórcio, ou seja, em regime de policultura, juntando milho, feijão e jerimum, entre outros. O aperfeiçoamento de práticas de manejo e seleção das melhores plantas, assim como o estabelecimento de canais de transmissão de informação junto dos agricultores é um desafio ainda colocado, mas que reflete a excelência do trabalho realizado.

iii) Valorização da visibilidade do papel da mulher

Ainda que o Censo Agropecuário realizado em 2017, realizado pelo IBGE, indique uma prevalência dos homens na liderança dos empreendimentos de agricultura familiar, diferentes pesquisas apontam para o gradual reconhecimento do papel das mulheres na liderança dos empreendimentos e nas dinâmicas associativas locais. Lembrando no caso do Brejo a força da Marcha das Margaridas em defesa das mulheres e da agricultura familiar agroecológica. É também o reconhecimento do verdadeiro papel da mulher e do enfrentamento do patriarcado reproduzido pelos Censos, considerando também que na Paraíba 51,7% dos lares são chefiados por mulheres, destacando-se a nível nacional.

Figura 2. Mulher manejando fibra de algodão
Fonte: fotografia cedida por Edigleuma Coelho (ASSAZEM)

iv) Fomento do associativo e cooperativismo

O associativismo e cooperativismo estão na base da dinâmica produtiva do algodão, trazendo outras dinâmicas territoriais, bem como vinculadas ao programa de construção de cisternas da Articulação Semiárido Brasileiro e outras instituições da Sociedade Civil, a exemplo da Associação Agroecológica de Certificação Participativa do Cariri Paraibano (ACEPAC), que participa do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, que tem por estratégia fortalecer a expansão do algodão consorciado com cultivares alimentares, com a certificação orgânica participativa, conta também com apoio financeiro de instituições internacionais.

v) Internacionalização da economia local do algodão

O relato obtido aponta para circuitos de comercialização diretamente para uma ligação direta com os mercados exclusivos da moda internacional neste segmento do têxtil produzido de forma tradicional e sem uso de fertilizantes.O importador não adquire apenas o produto, capacita os agricultores no sentido da garantia da excelência do produto final.

Em síntese, a retomada da produção de algodão, ressurge com outra roupagem, com apoio de instituições como a Embrapa, que vem dedicando esforços para produzir pesquisas voltadas a melhoria e fortalecimento da produção do algodão, ainda enfrenta desafios como a tímida tecnificação da produção no campo, porém há avanços na forma de organização das famílias agricultoras que participam de associações que atuam de forma participativa na certificação da produção e assim comercializam sua produção para outros países.


José Gomes Ferreira é professor visitante no Programa de Pós-graduação em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e professor colaborador no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. Email: jose.ferreira@outlook.com 

Jaqueline de Araújo Oliveira é mestranda no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: jaquelineaoliveira2@gmail.com 

Lélia Nogueira da Silva é mestranda no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: lelia.silva@aluno.uepb.edu.br 

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