Escrito por: José Gomes Ferreira1
Ricardo Luiz Oliveira Ribeiro2
Tâmara Mirely Silveira Malaquias Timóteo3
Tiago Almeida de Oliveira4
Adriana Pereira Sales5
Joscélia Cavalcante de Araújo6
Alice Roberto de Andrade Ribeiro7
A temática da educação norteia o desenvolvimento em múltiplas dimensões, entre elas o saber técnico para conduzir as ações de planejamento e o entendimento das comunidades desses conteúdos e ferramentas (Sousa; Freiesleben, 2018). Embora a educação sozinha não resolva todos os problemas, ela funciona como matriz para o desenvolvimento regional, na medida em que opera como um mecanismo decisivo de mudança na estrutura social e impulsiona o avanço tecnológico (Perdoná; Soares, 2021). Além disso, a educação ganha desde logo pela capacidade que confere em incorporar o dinamismo de determinada época (Freire, 1967) e em determinar a consciência crítica dos tempos e das oportunidades sociais (Sen, 2000), contribuindo para fomentar o desenvolvimento e a participação social e econômica.
Esse plano de fundo teórico auxilia na compreensão e leitura dos dados da PNAD Contínua – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (IBGE, 2026), recentemente divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Tabelas – 2025 Educação. A partir deles, o blog Apontamentos sobre Desenvolvimento Regional propõe uma breve análise dos dados estruturais da educação, com recortes de gênero, raça e idade. Afinal, discutir esses indicadores é discutir o próprio desenvolvimento regional, dado que a educação transforma pessoas e territórios, capacitando-os para desafios contemporâneos através da construção da capacidade crítica, análise rigorosa e literacia.
Neste artigo, o foco concentra-se na análise da taxa de analfabetismo nos nove estados da região Nordeste em 2025, com ênfase nas diferenças observadas entre as unidades federativas e suas implicações para o desenvolvimento regional. Antes, porém, importa analisar a taxa de escolarização por estado, também cruzada por gênero e raça. Em termos gerais, o Maranhão e Alagoas lideram o indicador do Nordeste com a maior taxa de escolarização, ambos com 30,4%, enquanto o Rio Grande do Norte apresenta o menor índice, com 26,1% (IBGE, 2026), ocupando, portanto, a última posição. Tais dados encontram-se representados na Figura 1.

Fonte: IBGE (2026).
Em todos os estados nordestinos a taxa é desfavorável para as mulheres. As maiores discrepâncias aparecem em Pernambuco (Homens 28,7% e Mulheres 25,5%), no Ceará (Homens 28% e mulheres 26%) e na Paraíba (Homens 29,4% e Mulheres 27,5%) (IBGE, 2026).
Esse cenário regional diverge do comportamento nacional. No Brasil, a taxa de média de escolarização é de 27,1%, com percentuais próximos para Homens (27,3%) e Mulheres (27,0%). Contudo, analisando o Nordeste, os percentuais sobem atingindo 28% como taxa total, mas a desigualdade de gênero se acentua: no caso dos Homens (28,7%), enquanto ligeiramente inferior no caso das Mulheres (27,4%), conforme apontam os dados oficias (IBGE, 2026).
A assimetria se repete quando analisamos os recortes raciais, No Brasil a taxa de escolarização é de 27,1%, se distribui de forma homogênea aos brasileiros brancos (27,1%) e a população de pardos e negros (27,2%). O mesmo não sucede no Nordeste, cuja taxa de escolarização atinge 28%, sendo 29% brancos e 27,6% pardos e negros. A leitura pela raça mostra que a situação é particularmente desfavorável para a população preta e parda em alguns estados da região, conforme evidencia a Figura 2.

Fonte: IBGE (2026).
A taxa de analfabetismo da população de 15 anos ou mais teve repercussão na mídia estadual online. Por exemplo, sobre o Rio Grande do Norte Lúcio Amaral escreve no JOL – Jornal Online, na edição de 19 de junho de 2026, a notícia com o título “Analfabetismo cai para menos de 10% pela primeira vez e RN avança em indicadores”, explicando no corpo da notícia tratar-se de um marco histórico na educação, uma vez que pela primeira vez a taxa de analfabetismo do estado ficou abaixo dos 10%, atingindo 9,3%.
Os dados estatísticos mostram que os estados do Nordeste apresentam taxas de analfabetismo de pelo menos o dobro da taxa média nacional, cujo total é de 4,9%, sendo maior no caso dos Homens (5,2%) que das mulheres (4,6%). A média do Nordeste é de 10,6%, atingindo 12% no caso dos homens e 9,3% das mulheres.
O estado com taxa de analfabetismo mais baixa é o Rio Grande do Norte, com 9,3% de taxa total, elevando-se para 11,7% no caso dos Homens e reduzindo para 7,2% das mulheres. Pernambuco é o outro estado com taxa inferior a 10%, a taxa em 2025 foi de 9,5%, com valor mais elevado nos Homens (10,3%) e inferior no das Mulheres. Os estados com taxas superiores foram o Piauí e Alagoas, ambos com taxa de 13,1%, destacando-se o Piauí por alcançar 15% no caso dos Homens, enquanto Alagoas não ultrapassou 14%, ainda assim superior aos 12,3% de taxa de analfabetismo das mulheres neste estado.

Fonte: IBGE (2026).
As estimativas por sexo confirmam que, em todos os estados nordestinos, a taxa de analfabetismo masculina supera a feminina. A Tabela 1 apresenta as taxas, coeficientes de variação e intervalos de confiança de 95%, enquanto a Tabela 2 resume os diferenciais entre homens e mulheres com correção de Holm para múltiplas comparações.

Fonte: IBGE, PNAD Contínua – SIDRA, tab. 7113 (2025). Elaboração dos autores.

Fonte: IBGE, PNAD Contínua – SIDRA, tab. 7113 (2025). Elaboração dos autores.
Nota: gap H–M = taxa masculina menos taxa feminina, em pontos percentuais. Considerou-se diferença estatisticamente significativa quando o intervalo de confiança não cruzou zero e p Holm < 0,05. Após a correção de Holm, as diferenças permaneceram significativas em Ceará, Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco e Bahia; em Alagoas e Sergipe, a evidência não permaneceu significativa ao nível de 5%.
A taxa de analfabetismo cresce fortemente conforme se avança na idade. Os grupos são cumulativos considerando toda a população de 15 anos ou mais, a taxa fica entre 9,3% (Rio Grande do Norte) e 13,1% (Piauí e Alagoas); ao restringir às pessoas de 60 anos ou mais, ela salta para 23,2% no Rio Grande do Norte e ultrapassa 35% no Piauí (35,2%) e em Alagoas (35,1%), chegando a 33,4% no Maranhão. Como o grupo “15 anos ou mais” já incorpora os mais jovens e ainda assim registra taxas bem inferiores às do grupo “60 anos ou mais”, fica evidente que o analfabetismo se concentra nas gerações mais velhas, que tiveram acesso limitado à escola no passado. A Figura 4 sintetiza esse gradiente etário:

Fonte: IBGE, PNAD Contínua – SIDRA, tab. 7113 (2025). Elaboração dos autores.
Outro dado importante é a taxa de analfabetismo da população com 15 anos ou mais relativamente à raça. Os dados nacionais mostram que a população branca apresenta uma taxa de apenas 2,8%, ao contrário da população preta ou parda que apresenta uma taxa de analfabetismo de 6,5%. No Nordeste a taxa de analfabetismo é de 10,6%, contabilizando 8,4% brancos e 11,3% pardos e negros. A análise a partir dos estados do Nordeste apresenta ainda maiores discrepâncias, com evidências de racismo estrutural, com maior expressão nos estados de Alagoas, do Piauí, do Rio Grande do Norte e do Ceará, que apresentam as seguintes taxas de analfabetismo por raça:
- Alagoas: branca 10,2% e preta ou parda 14,2%;
- Piauí: branca 10,1% e preta ou parda 13,8%;
- Rio Grande do Norte: branca 6,1% e preta ou parda 11,1%;
- Ceará: branca 8,7% e preta ou parda 11,9%.
- Em todos os nove estados a taxa da população preta ou parda supera a da branca. A maior distância racial está no Rio Grande do Norte (5,0 p.p.) e em Alagoas (4,0 p.p.); as menores, na Bahia (1,5 p.p.) e em Sergipe (1,7 p.p.). No plano nacional a diferença é de 3,7 p.p. (branca 2,8%; preta ou parda 6,5%). A Figura 5 ilustra esse contraste:

Fonte: IBGE (2026).

Fonte: Elaboração dos autores (2026).
Nota: no mapa, a cor vermelha representa clusters Alto-Alto, a cor azul representa clusters Baixo-Baixo e a cor cinza indica áreas sem significância estatística local ao nível de 5%.
A análise espacial também mostrou que o analfabetismo no Brasil não está distribuído de forma aleatória. O Índice Global de Moran foi positivo e estatisticamente significativo (I=0,73; p=0,001), indicando que estados com taxas semelhantes de analfabetismo tendem a estar próximos uns dos outros. Em outras palavras, áreas com maiores taxas aparecem agrupadas, assim como áreas com menores taxas também formam conjuntos regionais.
A análise LISA, que permite identificar esses agrupamentos no mapa, mostrou a presença de um cluster Alto-Alto no Nordeste. Isso significa que há UFs nordestinas com taxas elevadas de analfabetismo próximas de outras UFs que também apresentam valores altos. Por outro lado, foram identificados clusters Baixo-Baixo em parte do Centro-Sul do país, indicando UFs com menores taxas de analfabetismo próximas de outras UFs em situação semelhante.
Esses resultados reforçam que o analfabetismo não deve ser entendido apenas como uma condição individual que expressa desigualdades territoriais acumuladas historicamente, ligadas ao acesso desigual à educação, às oportunidades sociais e ao desenvolvimento regional. Do mesmo modo, as transformações atualmente em curso buscam inverter desigualdades territoriais historicamente acumuladas, ligadas ao acesso desigual e oportunidades sociais de forma geral.
Os atuais contornos do analfabetismo precisam ser examinados para além do ensino básico, pois sua distribuição espacial evidencia uma questão estrutural vinculada à continuidade desigual das trajetórias educacionais e às condições territoriais de acesso à formação. As reduções estatísticas das taxas de analfabetismo não significam superação das desigualdades educacionais. Os números apresentados continuam evidenciando a centralização dos problemas em grupos vulnerabilizados, o que conduz a necessária reflexão sobre a qualidade das políticas públicas que vem sendo conduzidas ao longo das décadas.
Dessa forma, superar o problema do analfabetismo no Nordeste não é apenas uma meta estatística, mas um imperativo para a consolidação da educação como prática da liberdade (Freire, 1967), consolidando e expandindo as capacidades humanas fundamentais no sentido de os indivíduos e territórios alcançarem um novo patamar de desenvolvimento sustentável e de liberdade (Sen, 2000).
REFERÊNCIAS
AMARAL, L. Analfabetismo cai para menos de 10% pela primeira vez e RN avança em indicadores. JOL – Jornal Online. 19 de junho de 2026. Disponível em: https://www.jolrn.com.br/2026/06/19/analfabetismo-cai-para-menos-de-10-pela-primeira-vez-e-rn-avanca-em-indicadores/. Acesso em: 30 jun. 2026.
FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). PNAD Contínua – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Tabelas – 2025 Educação, 2026. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/17270-pnad-continua.html. Acesso em: 30 jun. 2026.
PERDONÁ, G.; SOARES, T. C. O papel da educação no desenvolvimento regional: uma revisão sistemática de literatura. Brazilian Journal of Development, v. 7, n. 11, p. 109077-109094, 2021.
SEN, A. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2000.
SOUSA, F. E.; FREIESLEBEN, M. A educação como fator de desenvolvimento regional. Revista da FAE, v. 21, n. 2, p. 163-178, 2018.
1 José Gomes Ferreira é professor visitante do Programa de Pós-graduação em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e professor colaborador no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: jose.ferreira@outlook.com
2 Ricardo Luiz Oliveira Ribeiro é mestrando no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: ricardo.rlor2024@gmail.com
3 Tamara Mirely Silveira Malaquias Timóteo é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: proftamaratimoteo@gmail.com.
4 Tiago Almeida de Oliveira é docente do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade da Paraíba, tadolive@servidor.uepb.edu.br
5 Adriana Pereira Sales é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: contatoadrianasales@gmail.com
6 Joscélia Cavalcante de Araújo é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: joscelia.adv@gmail.com.
7 Alice Roberto de Andrade Ribeiro é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: alicerobertoribeiro@gmail.com