Escrito por: Miguel Cabral Bezerra
Produção de uva na Paraíba
A produção de uvas no Nordeste brasileiro é um dos exemplos mais expressivos de transformação econômica promovida pela modernização agrícola. A partir da segunda metade do século XX, os projetos de irrigação implantados no Vale do São Francisco permitiram que áreas marcadas pelas limitações climáticas do semiárido passassem a produzir frutas em larga escala. Entre essas atividades, a viticultura destacou-se pela capacidade de inserção nos mercados nacional e internacional, consolidando municípios como Petrolina/PE e Juazeiro/BA entre os principais polos produtores do país.
Segundo reportagem do G1 Petrolina e Região (2018), a produção de uvas e vinhos no Vale do São Francisco teve início na década de 1960, sendo impulsionada pelos investimentos em irrigação e pela introdução de tecnologias que permitiram elevar a produtividade e diversificar as variedades cultivadas. Ao longo das décadas, a região tornou-se referência nacional na produção de uvas de mesa e vinhos.

Fonte: ANBA (2024).
Na Paraíba, a cultura da uva encontrou espaço especialmente no município de Natuba, localizado no Agreste paraibano. Conhecida como “Terra da Uva”, a cidade desenvolveu uma importante tradição ligada ao cultivo da variedade Isabel, contado com a tradicional Festa da Uva, festejo que marca a influência do cultivo da fruta para o município, passando a integrar a economia local e a identidade cultural do município.
Segundo Bezerra (2024), com base em informações obtidas por meio de pesquisa empírica realizada no município, a introdução da cultura da uva em Natuba ocorreu na década de 1950. O pioneirismo é atribuído a Ramo Ribeiro, agricultor que iniciou o cultivo no Sítio Fervedouro a partir de algumas mudas trazidas para a localidade. A experiência mostrou-se bem-sucedida e contribuiu para a difusão da atividade entre outros produtores rurais do município. Ao longo das décadas, a viticultura consolidou-se como uma importante atividade econômica local, permanecendo presente até os dias atuais e influenciando a organização do espaço rural, a geração de renda e a identidade cultural de Natuba.
De acordo com o Governo do Estado da Paraíba (2020), aproximadamente 140 produtores participam da atividade vitícola em Natuba, cuja produtividade média pode alcançar 30 toneladas por hectare ao ano. Além da comercialização da fruta in natura, a produção local também é utilizada na fabricação de derivados como vinhos artesanais, licores, geleias e doces.
Potencial turístico da enoturismo
Para Bezerra (2024), a produção de uvas em Natuba ultrapassa a dimensão agrícola, passando a exercer um papel importante na transformação do espaço e no desenvolvimento regional do município. O autor destaca que a viticultura, ao se articular com práticas turísticas, contribui para a valorização do território e para a criação de novas dinâmicas econômicas locais.
Nesse contexto, o turismo associado à produção de uvas fortalece a economia natubense ao gerar renda, incentivar atividades complementares e atrair visitantes interessados na experiência rural. Assim, segundo Bezerra (2024), a integração entre viticultura e turismo consolida-se como um fator relevante para o desenvolvimento socioeconômico de Natuba.
A importância econômica da atividade fez com que a paisagem rural do município fosse profundamente marcada pelos parreirais. Durante décadas, a comercialização da uva constituiu uma das principais fontes de renda para diversas famílias agricultoras.

Fonte: @parreiraldaserraa (2026).
Entretanto, as transformações ocorridas no mercado da uva criaram novos desafios para os produtores natubenses. Enquanto Petrolina consolidava sua posição como um dos maiores polos produtores do Brasil, com grande escala produtiva e ampla diversidade de cultivares, Natuba permaneceu fortemente dependente da variedade Isabel, por questões também tidas como culturais, influenciadas pela forma como esses produtores passam a experiência da uva de geração em geração, por se tratar de uma vertente da agricultura familiar.
Essa diferença reduziu a competitividade dos pequenos produtores, principalmente daqueles que possuem propriedades com poucos hectares. Todavia, produtores com maiores extensões de terras, optaram pela adoção do plantio de goiabas, trazendo um novo mercado influente para o município, agora dividido entre a viticultura, goiabicultura, e a plantação de banana, que já é um cultivo antigo na localidade. Diante das dificuldades de competir diretamente em volume e diversidade de produção, muitos agricultores passaram a buscar alternativas capazes de complementar a renda familiar.
Essas limitações produtivas também produzem efeitos sociais relevantes, como o aumento da vulnerabilidade da renda familiar, a intensificação do êxodo rural entre os mais jovens e o consequente envelhecimento da população agrícola. Soma-se a isso a fragilização das redes de cooperação entre produtores, bem como a reprodução de desigualdades internas no meio rural, uma vez que agricultores com maior acesso à terra conseguem diversificar sua produção, enquanto os de menor escala permanecem mais dependentes de atividades agrícolas restritas e de menor rentabilidade.

Fonte: @regina.medeirosamorim (2025).
Mudança de Estratégia
É nesse contexto que surge um fenômeno que chama atenção no município: a transformação dos parreirais em atrativos turísticos. Em vez de abandonarem a atividade agrícola, diversos produtores passaram a agregar novos usos ao espaço rural.
Os parreirais deixaram de ser apenas locais de produção para se tornarem ambientes de visitação, contemplação da paisagem, ensaios fotográficos, cafés da manhã rurais e comercialização de produtos derivados da uva. O visitante não busca apenas comprar a fruta, mas vivenciar uma experiência associada à cultura local e ao ambiente rural.
Essa mudança representa um processo de diversificação econômica e de valorização dos recursos territoriais existentes. A paisagem agrícola, antes destinada exclusivamente à produção, passa a desempenhar também funções ligadas ao lazer, ao turismo e à preservação da identidade local.
A realidade observada em Natuba também pode ser compreendida à luz das reflexões de Celso Furtado (1961) sobre o desenvolvimento regional. Em Desenvolvimento e subdesenvolvimento, o autor argumenta que o processo de desenvolvimento econômico ocorre de forma desigual, concentrando investimentos, tecnologia e infraestrutura em determinadas regiões, enquanto outras permanecem em condições menos competitivas. Diante dessas desigualdades, as economias locais tendem a construir estratégias próprias de adaptação, aproveitando recursos e potencialidades do território. Sob essa perspectiva, a transformação dos parreirais em atrativos turísticos representa uma resposta dos pequenos produtores de Natuba à concorrência exercida pelo polo vitivinícola de Petrolina. Sem condições de competir em escala produtiva, esses agricultores passaram a agregar valor à atividade tradicional por meio do turismo de experiência, diversificando as fontes de renda e fortalecendo a permanência da agricultura familiar no município.
Essa estratégia também pode ser interpretada a partir da perspectiva de Milton Santos (1996). Em A natureza do espaço, o autor afirma que o espaço geográfico é resultado da interação entre técnicas, ações humanas e formas de uso do território, sendo continuamente transformado pelas práticas sociais e econômicas. Nesse sentido, os parreirais de Natuba deixam de cumprir exclusivamente a função produtiva e passam a incorporar atividades ligadas ao turismo, ao lazer e à valorização da cultura local. Assim, a diversificação promovida pelos produtores não representa apenas uma alternativa econômica, mas também uma ressignificação do espaço rural, que passa a desempenhar múltiplas funções.
O caso de Natuba demonstra que o desenvolvimento regional não depende apenas da capacidade de competir em larga escala, mas também da habilidade dos atores locais de adaptar-se às transformações do mercado. Essa conversão em atrativos turísticos revela uma estratégia de reinvenção diante da concorrência exercida por grandes polos produtores, como Petrolina. Mais do que uma mudança de atividade, esse processo evidencia a multifuncionalidade do espaço rural, que passa a reunir produção agrícola, turismo e valorização cultural. Com isso, novos empregos foram gerados no setor turístico, ampliando a importância econômica dos parreirais. Dessa forma, os pequenos produtores de Natuba encontram novas possibilidades de geração de renda sem abandonar uma atividade que integra a história e a identidade do município.

Fonte: @natubaecotur (2026).
A pesquisa em desenvolvimento busca compreender de que maneira a transformação de parreirais em atrativos turísticos têm contribuído para a diversificação das atividades econômicas rurais e para a construção de novas estratégias de desenvolvimento regional no município de Natuba/PB.
REFERÊNCIAS
ARRUDA, I. Natuba: um paraíso no Agreste paraibano. A União, João Pessoa, 4 abr. 2022. Disponível em: https://auniao.pb.gov.br/noticias/caderno_paraiba/natuba-um-paraiso-no-agreste-paraibano. Acesso em: 17 jun. 2026.
BEZERRA, M. A viticultura como atividade transformadora do espaço no município de Natuba-PB: um olhar para as repercussões sociais, econômicas e culturais. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Geografia) – Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, 2024. Disponível em: https://repositorio.uepb.edu.br/handle/123456789/55326. Acesso em: 17 jun. 2026.
FURTADO, C. Desenvolvimento e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
G1 PETROLINA E REGIÃO. Produção de uvas e vinhos no Vale do São Francisco: uma história que começa na década de 1960. G1 Petrolina, 27 mar. 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/pe/petrolina-regiao/noticia/producao-de-uvas-e-vinhos-no-vale-do-sao-francisco-uma-historia-que-comeca-na-decada-de-1960.ghtml. Acesso em: 17 jun. 2026.
GOVERNO DO ESTADO DA PARAÍBA. Natuba começa colheita da produção de uvas com orientação da Empaer. João Pessoa, 26 out. 2020. Disponível em: https://auniao.pb.gov.br/noticias/caderno_paraiba/natuba-comeca-colheita-da-producao-de-uvas-com-orientacao-da-empaer. Acesso em: 17 jun. 2026.
SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
Miguel Cabral Bezerra é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Desenvolve pesquisa sobre os impactos sociais, econômicos e culturais do turismo em Natuba/PB. E-mail: mcbezerra.lab@gmail.com.