Escrito por: Alice Roberto de Andrade Ribeiro
A dinâmica do desenvolvimento econômico brasileiro foi marcada por profundas assimetrias regionais e por uma industrialização que, historicamente, tendeu a concentrar a alta intensidade tecnológica em um quadrante geográfico muito restrito do país. Esse padrão de concentração, que privilegiou historicamente o eixo Centro-Sul, gerou hiatos estruturais severos nas demais regiões, limitando de forma persistente a capacidade de territórios como o Norte e o Nordeste de reter mão de obra qualificada, atrair investimentos de fronteira e gerar valor agregado em suas cadeias locais.
Os avanços para instalação do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) e a execução das Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) surgem não apenas como escudos contra a vulnerabilidade externa, mas como possíveis motores potentes de descentralização e valorização regional O exemplo mais emblemático e robusto dessa transformação estrutural em curso é a consolidação da Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), instalada na região nordestina, sinalizando uma ruptura na tradicional geografia da inovação brasileira.
Para compreender o impacto de um empreendimento biotecnológico de grande porte, principalmente na região nordeste, faz-se premente recorrer aos ensinamentos de Wilson Cano (2008), que dedicou parte de sua obra a analisar como o processo de industrialização nacional concentrou capital, infraestrutura e inovação na região Sudeste-Sul, gerando uma dinâmica de esvaziamento e subordinação econômica nas demais regiões. Esse padrão de concentração produtiva perpetuou hiatos tecnológicos e limitou, por muito tempo, a capacidade das ‘periferias nacionais’ de reterem mão de obra qualificada.
Sob a mesma perspectiva, Celso Furtado (1959), por sua vez, argumentava que o subdesenvolvimento não é uma etapa prévia ao desenvolvimento, mas uma condição estrutural caracterizada pela persistência de fatores de produção obsoletos e pela dependência externa. Assim, a superação dessa armadilha exige uma intervenção deliberada e estratégica do Estado, capaz de deslocar o centro dinâmico da economia e de coordenar investimentos que rompam com a lógica de exclusão periférica. O planejamento econômico estatal deve, portanto, servir como o instrumento basilar para endogeneizar o progresso técnico, absorvendo a ciência e a tecnologia para transformar estruturalmente o perfil produtivo das regiões menos favorecidas.
É, então, sob essa herança intelectual que a economista Tânia Bacelar (2000) reconstrói a agenda para o Nordeste contemporâneo ao apontar que, embora a região tenha avançado na atração de indústrias tradicionais e na expansão do setor de serviços, o verdadeiro salto qualitativo depende da inserção da economia nordestina na fronteira da transição tecnológica e ecológica. A interiorização do desenvolvimento passa pela criação de novos arranjos produtivos intensivos em conhecimento, capazes de dialogar com Universidades e Estado ao fixar centros de pesquisa e excelência fora das capitais tradicionais. Nesse ínterim, a implantação de indústrias da saúde no território nordestino representa, portanto, a materialização direta das redes defendidas por Bacelar.
O Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) engloba subsistemas de base química, biotecnológica e mecânica que interligam a prestação de serviços assistenciais à produção de insumos, medicamentos e equipamentos eletromédicos (Gadelha, 2022). Historicamente, o Brasil manteve uma balança comercial altamente deficitária nesse setor, importando a esmagadora maioria dos Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) e produtos biológicos de alta complexidade. Essa vulnerabilidade ficou evidente durante a pandemia da COVID-19, quando o desabastecimento global expôs os riscos de depender integralmente de mercados externos.
As Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), instituídas a partir de 2008, surgiram como uma política de inovação orientada pela demanda. Utilizando o monumental poder de compra do Ministério da Saúde através do Sistema Único de Saúde (SUS), o Estado garante exclusividade de mercado por um determinado período para laboratórios e indústrias nacionais que se associem a parceiros privados internacionais detentores da tecnologia. O cerne da PDP não é a mera compra de medicamentos a preços menores, mas a internalização e a transferência efetiva da tecnologia para o território brasileiro, capacitando laboratórios públicos e gerando autonomia nacional.
Embora a análise detalhada do portfólio histórico das PDPs (Ribeiro, 2024) revele uma persistente concentração estrutural dessas parcerias na região Sudeste do país, centralizadas em grandes instituições situadas no Rio de Janeiro e em São Paulo (como Fiocruz e Butantan), o território nordestino consolidou uma participação estratégica, complementar e altamente diferenciada nesse arranjo. A região Nordeste abriga importantes parcerias voltadas ao desenvolvimento de fármacos sintéticos pelo Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (LAFEPE) e pelo Núcleo de Pesquisa em Alimentos e Medicamentos (NUPLAM) no Rio Grande do Norte, além do desenvolvimento de dispositivos médicos pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e pela Bahiafarma. Contudo, é na fronteira biotecnológica mais avançada e complexa do setor — a área dos hemoderivados — que o Nordeste assume um protagonismo técnico único e incontestável no cenário nacional por meio da consolidação da Hemobrás
A Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), criada pela Lei nº 10.972/2004, foi estruturada para solucionar um desafio histórico do sistema de saúde brasileiro que era a destinação, o fracionamento e o processamento do plasma humano coletado na rede de hemocentros do país. O plasma, muitas vezes referido como o “ouro líquido” da saúde pública, é a matéria-prima essencial para a fabricação de medicamentos cruciais para pacientes com hemofilia, imunodeficiências primárias, cirrose, grandes queimaduras e doenças autoimunes.

Figura 1 – Processamento e traigem das bolsas de plasma humano na Empresa Brasileira de Hemoderivados.
Fonte: Sítio eletrônica da Hemobrás (2026).
Para materializar essa missão, a planta industrial da Hemobrás foi instalada no município de Goiana, no norte de Pernambuco, cobrindo uma área de 25 hectares, com 17 prédios organizados em 09 blocos produtivos. A estratégia de implementação da fábrica obedeceu a uma lógica de engenharia reversa: as instalações foram entregues do final para o começo do processo fabril. Primeiro, estruturaram-se as áreas de acondicionamento, armazenamento e expedição; em seguida, os blocos de envase; e, por fim, as complexas estruturas de purificação e fracionamento do plasma. Essa metodologia permitiu que a empresa iniciasse suas operações comerciais e logísticas e distribuísse medicamentos importados via parcerias enquanto finalizava o complexo tecnológico de produção local, reduzindo progressivamente os custos de operação.

Figura 2– Vista do parque fabril da Hemobrás em Goiana-PE.
Fonte: Sítio eletrônica da Hemobrás (2026).
A consolidação em Pernambuco desencadeia efeitos multiplicadores que reverberam positivamente nos indicadores socioeconômicos da região, alinhando-se perfeitamente às perspectivas de desenvolvimento defendidas por Tânia Bacelar. O primeiro impacto direto dá-se na composição do mercado de trabalho local. A indústria farmacêutica de alta tecnologia demanda uma força de trabalho intensiva em conhecimento e altamente qualificada.
Assim, para operar o maquinário e os processos de purificação biológica na fronteira do conhecimento, a Hemobrás investiu em programas de educação continuada e treinamento especializado de seus técnicos, incluindo capacitações internacionais em centros de biotecnologia no exterior. Essa qualificação de capital humano eleva o patamar salarial e técnico da região e atrai novos pesquisadores, combatendo o histórico fenômeno da “fuga de cérebros”.
A Hemobrás alcançou o marco histórico de atender a 100% da demanda do SUS pelo Fator VIII Recombinante através de sua parceria de transferência de tecnologia com a Baxter/Takeda. Esse feito confere à empresa e à região Nordeste uma posição de destaque na geopolítica da saúde nacional, provando que é economicamente viável e operacionalmente eficiente descentralizar a infraestrutura biotecnológica do país.
Do ponto de vista financeiro, a trajetória da estatal demonstra que os investimentos públicos geram retornos robustos e sustentáveis, contrariando o mito da ineficiência crônica das empresas públicas. No exercício de 2023, a empresa atingiu o maior desempenho econômico-financeiro de sua história, com um lucro líquido de R$ 326,5 milhões — um crescimento de 72,94% em relação ao ano anterior. Suas reservas constituídas saltaram para R$ 259,7 milhões, permitindo a distribuição de R$ 77 milhões em dividendos para a União e assegurando recursos próprios para reinvestimento na conclusão final da planta fabril.
O resultado direto do amadurecimento da PDP, que passou a suprir o mercado doméstico com estabilidade e previsibilidade a partir de sua infraestrutura local, demonstra, portanto, a importância do papel indutor do Estado na transformação das estruturas subdesenvolvidas e confirma os argumentos de Tânia Bacelar sobre o potencial do Nordeste para liderar novos vetores econômicos intensivos em conhecimento capazes de desenvolver a região. A experiência das Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo demonstra que a política de compras públicas da saúde é um instrumento poderoso de ‘neoindustrialização’ e de inclusão regional.
Por fim, descentralizar a produção farmacêutica avançada e deslocar a biotecnologia para fora do tradicional eixo Sul-Sudeste revela-se, portanto, não apenas uma escolha de eficiência produtiva e segurança nacional, mas sim uma opção pelo desenvolvimento regional equilibrado. Afinal, ao aliar a geração de empregos altamente qualificados, alcançar lucros e o salvamento de vidas humanas, a Hemobrás consolida-se como o maior exemplo de que o Nordeste brasileiro tem plena capacidade de se posicionar na vanguarda da ciência e da soberania sanitária do país.
REFERÊNCIAS
ALBAREDA, A. P.; TORRES, R. L. O fortalecimento do segmento de base química e biotecnológica do Complexo Industrial da Saúde por meio das Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo. Revista Economia Ensaios, Uberlândia, v. 33, p. 1-22, 2019.
BACELAR, T. Ensaios sobre o desenvolvimento regional brasileiro. Recife: Editora UFPE, 2000.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Relatório integrado de gestão 2023. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.
CANO, W. Desconcentração industrial regional no Brasil 1970-2005. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Unesp, 2008.
FURTADO, C. Perspectivas da economia brasileira. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1959.
GADELHA, C. A. G. Complexo Econômico-Industrial da Saúde: a base econômica e material do Sistema Único de Saúde. Cadernos de Saúde Pública, v. 38, supl. 2, e00059921, 2022.
HEMOBRÁS. Relatório de monitoramento e demonstrações financeiras: exercício de 2023. Goiana: Hemobrás, 2023.
MAZZUCATO, M. O estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2014.
RIBEIRO, A. R. A. O caso da Hemobrás: uma análise da influência das parcerias do desenvolvimento produtivo no Nordeste. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Econômicas) – Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande, 2024.
Alice Roberto de Andrade Ribeiro é mestranda no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. Desenvolve o projeto com o título “A saúde como vetor de desenvolvimento: uma análise das Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo”. E-mail: alicerobertoribeiro@gmail.com.