PATRIMÔNIO HISTÓRICO E IDENTIDADE CULTURAL: A PEDRA DA TORRE, O QUILOMBO DO GRILO E A INSERÇÃO DE RIACHÃO DO BACAMARTE NO MAPA DO TURISMO NACIONAL.

Distante aproximadamente 90 quilômetros de João Pessoa e a 30 quilômetros de Campina Grande, no Agreste paraibano, o município de Riachão do Bacamarte conta com cerca de 4.690 habitantes (IBGE, 2022) distribuídos em apenas 38 km² de área. A cidade se destaca por guardar alguns dos elementos mais surpreendentes — e ainda pouco conhecidos, inclusive por moradores locais — do patrimônio histórico regional. Situado em uma localização estratégica entre os dois principais centros urbanos do estado, o município é cortado pela BR-230. A rodovia foi concebida na década de 1970 com a proposta de integração nacional e desenvolvimento regional, mas, segundo Lima (2024), não logrou êxito em conquistar um patamar avançado de desenvolvimento socioeconômico e urbanístico para a localidade.

Entre os tesouros que a região abriga e que integram o acervo cultural e histórico municipal, destacam-se dois em particular: a Pedra da Torre e a comunidade quilombola do Grilo. A primeira é uma formação rochosa de fácil acesso, localizada sobre um lajedo às margens da BR-230 (sentido Campina Grande) e coberta de inscrições rupestres pré-históricas. A segunda é um território negro situado na zona rural do município, marcado pela memória da escravidão e por uma forte tradição de resistência. Com a recente inclusão de Riachão do Bacamarte no Mapa do Turismo Brasileiro, esses dois patrimônios — além de outros atrativos — ganham uma chance real de preservação, visibilidade e desenvolvimento sustentável.

A Pedra da Torre: um painel de mistérios na rocha

Trafegando pela BR-230, logo após passar pela cidade de Riachão do Bacamarte — no km 127, sentido Campina Grande —, visualiza-se o emblemático bloco granítico que serve de divisa natural entre os municípios de Riachão do Bacamarte e Massaranduba. Seu topo afilado, coroado por um antigo cruzeiro, lembra a torre de uma igreja, dando origem ao nome da comunidade próxima e da própria rocha, que se tornou um marco visual na paisagem da Borborema.

No entanto, o verdadeiro tesouro está na face noroeste da rocha: um painel de inscrições rupestres pré-históricas, com linhas sinuosas, círculos e símbolos geométricos conhecidos na arqueologia como “capsulares”. Essas marcas não são um caso isolado. Pesquisas arqueológicas na Paraíba já identificaram centenas de pinturas e gravuras rupestres espalhadas pela região, sugerindo que a Pedra da Torre integra um circuito maior de sítios pré-históricos do Agreste. Este complexo inclui o famoso Sítio das Itacoatiaras do Ingá, tombado desde 1994 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como o primeiro sítio de arte rupestre reconhecido como patrimônio nacional no Brasil.

Figura 1 – Inscrições rupestres na Pedra da Torre-PB.
Fonte: Fotografia do autor (2026).

A Comunidade Quilombola do Grilo: memória, resistência e identidade

Na zona rural do município, vive a comunidade do Grilo, um dos quilombos mais expressivos da região. Seus primeiros moradores chegaram por volta de 1918, e o nome do lugar faz referência a uma antiga fonte de água cujo entorno, segundo relatos dos moradores locais, era repleto de grilos.

O povoado nasceu quando as terras do quilombo vizinho, Pedra D’Água, já não eram suficientes para sustentar todas as famílias. Grande parte dos habitantes atuais descende dos primos Manuel Dudá e Dôra que, após se casarem, decidiram viver ali — terra natal de Manuel —, onde fincaram raízes. Hoje, o local reúne 279 pessoas, organizadas em cerca de 110 famílias (INCRA, 2021), e tem como lideranças dona Lourdes e Paquinha, duas mulheres de grande representatividade e talento na produção de panelas de barro e na renda de labirinto.

O patrimônio imaterial do Grilo é riquíssimo, destacando-se a confecção da renda de labirinto (técnica artesanal de origem africana), a produção de louças de barro, os festejos de Nossa Senhora Aparecida e as celebrações de coco de roda, ciranda e samba. Além disso, o belíssimo pôr do sol do alto da Pedra do Grilo coroa a paisagem de um território que mantém viva a essência quilombola.

Em 2023, essa trajetória ganhou as telas com o documentário Caminhos do Grilo. A obra, desenvolvida por jovens do quilombo Grilo, durante uma oficina de produção audiovisual promovida pela Associação de Juventudes, Cultura e Cidadania (AJURCC), exposta em Cabaceiras, durante o 1º festival Conecta Juventude (2024), retrata a memória, as tradições e a luta do local. Ao registrar depoimentos de lideranças e histórias do cotidiano, o filme cumpre um papel fundamental ao espalhar essas memórias para um público mais amplo.

Figura 2 – Pôr do Sol visto do alto da Pedra do Grilo.
Fonte: Fotografia do autor (2026).

O que muda com a entrada do município no mapa do turismo brasileiro

O Mapa do Turismo Brasileiro é o instrumento do Ministério do Turismo que reconhece oficialmente municípios com potencial para desenvolver o setor de forma organizada. Riachão do Bacamarte, apesar de possuir esses tesouros “escondidos”, ainda é pouco conhecido e divulgado. No entanto, com o devido reconhecimento e cuidados, o município pode alcançar um melhor aproveitamento de suas potencialidades, visando a uma maior participação turística que impulsione o desenvolvimento local.

Ao entrar para essa lista oficial, o município passa a ter acesso prioritário a programas, ações e financiamentos do Governo Federal. Isso facilita a atração de investimentos privados e parcerias institucionais, além de abrir caminhos para a criação de roteiros turísticos integrados com municípios vizinhos, como Ingá e Serra Redonda, consolidando uma rota arqueológica e quilombola no Agreste. Como resultado prático, haverá a geração de renda para a comunidade do Grilo a partir do turismo étnico e cultural, valorizando a renda de labirinto, a culinária local, as festas tradicionais e os saberes ancestrais.

A experiência mostra que o turismo cultural bem planejado pode ser, paradoxalmente, um dos melhores instrumentos de conservação: quando gera renda para quem vive ao redor de um patrimônio, cria-se um incentivo real para protegê-lo, o que consequentemente culmina no desenvolvimento local e regional. O SEBRAE Paraíba, por exemplo, já vem qualificando empreendedores locais em hotelaria, gastronomia e economia criativa em diversos municípios do mapa — um caminho que pode beneficiar diretamente Riachão do Bacamarte.

Um  patrimônio, duas urgências

A Pedra da Torre e o Quilombo do Grilo contam a história de um mesmo território: de um lado, a pré-história indígena gravada na rocha; de outro, a história da escravidão e da resistência negra, viva na memória e nas práticas culturais de uma comunidade inteira. Esses locais não são apenas atrações turísticas, mas sim fundamentos da identidade regional e nacional.

Nesse contexto, a inclusão de Riachão do Bacamarte no Mapa do Turismo Brasileiro surge como uma oportunidade concreta de transformar esse potencial em proteção real e em vetor de desenvolvimento. Isso trará mais visibilidade, mais recursos, além de incentivar pesquisas científicas sobre o sítio arqueológico e dar mais força para que a regularização fundiária do quilombo finalmente se conclua. Com a Paraíba mostrando que é capaz de dar saltos expressivos no turismo regional, Riachão do Bacamarte tem todos as condições para se tornar uma referência em turismo arqueológico e étnico-cultural sustentável no Nordeste — desde que a pesquisa, a regularização fundiária, a proteção jurídica e, sobretudo, o protagonismo das comunidades locais caminhem juntos.

REFERÊNCIAS:

ANDRADE, M. Anteprojeto para a criação do Serviço do Patrimônio Artístico Nacional (1936). Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro: IPHAN, n. 30, p. 271-287, 2022.

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Comunidades quilombolas certificadas. Brasília: FCP, 2023. Disponível em: http://www.palmares.gov.br. Acesso em: 18 jun. 2026.

GOVERNO DA PARAÍBA. Secretaria de Turismo e Desenvolvimento Econômico. Histórico: com crescimento de 94,5%, a Paraíba alcança 107 municípios no Mapa do Turismo Brasileiro. João Pessoa: SETDE, 2025.

INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA – INCRA. Documentário mostra história da Comunidade Quilombola do Grilo, no Agreste da Paraíba. Brasília: INCRA, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/incra. Acesso em: 19 jun. 2026.

INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA – INCRA. Comunidade quilombola do Grilo (PB) tem cadastro atualizado. Brasília: INCRA, 2023.

IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Sítio Arqueológico Pedra do Ingá: ficha de tombamento. Brasília: IPHAN, 1944.

LIMA, M. P. C. Chegada e duplicação da BR-230 em Riachão do Bacamarte: um estudo sobre os desdobramentos socioeconômicos e urbanísticos. 2024. 66f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Geografia) – Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, 2024

MARACAJÁ, M. S. L. Território e memória: a construção da territorialidade étnica da Comunidade Quilombola Grilo, Paraíba. Dissertação (Mestrado em Geografia) – UFPB, João Pessoa, 2013.

OBSERVATÓRIO TERRAS QUILOMBOLAS. Terra Quilombola Grilo – Riachão do Bacamarte/PB. São Paulo: CPISP, 2023. Disponível em: https://cpisp.org.br/grilo. Acesso em: 20 jun. 2026.

PARAÍBA CRIATIVA. Riachão do Bacamarte. João Pessoa: Governo da Paraíba, 2016. Disponível em: https://paraibacriativa.com.br. Acesso em: 21 jun. 2026.

PINHEIRO, C. L. M. et al. “Eles acabaram com a vida do meu pai”: memórias da escravidão na Comunidade Quilombola do Grilo – Paraíba. In: Anais do V CONEDU. Recife, 2018.


Marcos Paulo do Carmo de Lima é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Desenvolve pesquisa sobre os impactos socioeconômicos, culturais e turísticos no município de Riachão do Bacamarte/PB.
E-mail: marcosmbt7@hotmail.com

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