DO SEMIÁRIDO AO SILÍCIO: O DESAFIO DE FAZER A IA FALAR PARAIBANO

Machine learning pode prever secas, mas só reduzirá desigualdades se for tão nordestino quanto o cuscuz e, na Paraíba, tão cotidiano quanto o café da manhã de milho no prato. A provocação tem endereço certo: como aprender com os cases internacionais sem repetir seus erros e, ao mesmo tempo, maximizar os acertos? Em 1961, quando Celso Furtado escreveu Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, um computador ocupava uma sala inteira e ainda não havia fincado pé no Brasil. Hoje, a IA cabe no bolso, mas a pergunta permanece atual: essa revolução digital está chegando às comunidades rurais da Paraíba, para além do uso do celular como simples mercadoria? Enquanto a China ergue trens-bala para integrar seus pólos tecnológicos, a Paraíba aposta num caminho mais silencioso, porém transformador. O projeto Limite do Visível, parceria da UEPB, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Paraíba (SECTIES/PB) e FAPESQ), pretende formar dois mil jovens nas regiões da mata paraibana, agreste e borborema, em tecnologia da informação, nos cursos tecnólogos em Ciência de Dados e em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, oferecendo bolsas de R$ 1.000 mensais até 2026. A iniciativa combina renda e capacitação, articulando inclusão produtiva e desenvolvimento territorial no chão do semiárido.

O impacto vai além da formação técnica. Para muitas famílias, a bolsa representa não apenas a chance de manter o jovem no curso, mas a principal ou até a única fonte de renda doméstica. Segundo dados internos do projeto (SECTIES), 19% dos estudantes têm no valor recebido sua única renda familiar e 49% vivem em lares com até um salário mínimo. O efeito imediato é de estabilidade mínima, permitindo que o estudante se dedique integralmente à formação. A renda per capita dessas famílias salta de R$ 608 para mais de R$ 1.000 quando a bolsa é incluída. Isso significa que o Limite do Visível não apenas forma profissionais de TI: ele reduz a pobreza no curto prazo e cria perspectivas de mobilidade social no médio prazo. Uma transformação silenciosa, que se multiplica dentro de cada casa, onde a presença de um estudante de tecnologia rompe ciclos históricos de exclusão e abre a possibilidade de que a próxima geração já cresça com computador, internet e novas ambições.

Celso Furtado já havia dado a chave interpretativa: “Crescer não é desenvolver”. O verdadeiro desenvolvimento, dizia ele, exige transformação estrutural, redução de desigualdades e criação de capacidades locais. A Paraíba, onde uma parcela da população vive em áreas rurais (IBGE PB), não pode prescindir de tecnologias que ajudem a prever secas prolongadas, otimizar o uso da água e antecipar eventos climáticos extremos. Mas, sem raízes locais, qualquer modernização corre o risco de gerar apenas “ilhas de prosperidade” em meio a um mar de desigualdade.

É nesse ponto que a leitura de Milton Santos e os “dois circuitos” amplia a análise. O circuito superior, globalizado, formal, altamente conectado, tende a se apropriar primeiro da IA, multiplicando seus lucros e consolidando hegemonias. Já o circuito inferior, formado por trabalhadores informais, pequenos produtores e economias de sobrevivência, permanece vulnerável, muitas vezes como mero consumidor precarizado de inovações que não dialogam com sua realidade. O risco, portanto, é que a IA, se não for moldada à escala local, aprofunde a distância entre esses dois circuitos, cristalizando a pobreza em vez de superá-la.

Esse perigo não é apenas teórico. A OCDE vem alertando, em seus Princípios de IA (2019) e no Observatório de Políticas de IA, que sistemas sensíveis, como educação, saúde, crédito e benefícios sociais, exigem governança robusta, auditoria e transparência. Isso porque algoritmos treinados em dados enviesados podem perpetuar discriminações históricas. No Brasil, onde desigualdades raciais e sociais são profundas, o alerta se torna mais urgente: um modelo de crédito pode penalizar populações negras e de baixa renda; sistemas de triagem podem privilegiar áreas urbanas; e seleções automatizadas podem excluir candidatos apenas pela origem social. 

É aqui que entra a contribuição de Amartya Sen, cuja visão de desenvolvimento como expansão de liberdades humanas oferece um contraponto essencial. Como escreveu em Desenvolvimento como Liberdade (1999): “O desenvolvimento tem de estar relacionado, acima de tudo, com a melhoria da vida que levamos e das liberdades que desfrutamos”. Aplicada ao caso paraibano, essa perspectiva sugere que a IA só cumprirá seu papel se ampliar as capacidades reais das pessoas: aprender, produzir, acessar saúde e viver com dignidade. Em outras palavras, tecnologia só será desenvolvimento quando se converter em liberdade concreta para os que hoje vivem à margem.

A inteligência artificial, contudo, não é apenas risco. Se bem orientada, pode ser motor de dinamização econômica e inclusão produtiva. Startups de base tecnológica, estimuladas por fundos regionais e universidades locais, podem transformar dados do estado, climáticos, agrícolas, de saúde e energia, em soluções de mercado. O impacto seria duplo: ganhos de produtividade em setores tradicionais e geração de empregos qualificados, capazes de reter talentos no interior. Um programador contratado em Patos ou Cajazeiras não apenas eleva sua renda, mas movimenta comércio, serviços e arrecadação local.

Outros países já mostraram que esse caminho é viável. A Estônia se tornou hub digital não a partir de indústrias pesadas, mas de uma estratégia nacional de digitalização que ajudou a criar startups globais (caso do Skype). Em Israel, a aplicação de IA e visão computacional à irrigação de precisão evoluiu de pioneirismos como a gota-a-gota para soluções inteligentes (Netafim/precision irrigation; Prospera + Valmont). E em Portugal, pequenas cidades sem tradição industrial passaram a sediar polos tecnológicos com apoio de programas nacionais (StartUP Portugal) e de fundos europeus (Portugal 2030).

A Paraíba poderia adaptar essas experiências ao seu próprio mapa de potencialidades, pois se a tecnologia permanecer restrita às elites urbanas, repetiremos o ciclo que Celso Furtado denunciou há seis décadas: modernização para poucos. O desafio é moldar a IA às necessidades regionais, transformando-a em motor de inclusão e desenvolvimento. Tal como o açude de Boqueirão, ela só terá sentido se a água, ou, neste caso, os benefícios da inovação, chegar a quem mais precisa.


Tiago Almeida de Oliveira é professor Associado da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), onde atua no Bacharelado em Estatística e no Mestrado em Desenvolvimento Regional. Doutor em Estatística e Experimentação Agronômica pela Esalq/USP, integra o Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde (USP) e o Centro de Desenvolvimento Regional da UEPB. Pesquisa Estatística Aplicada, Machine Learning e desenvolvimento regional. E-mail: tadolive@servidor.uepb.edu.br

Aline de Andrade Barbosa é mestranda em Desenvolvimento Regional pela Universidade Estadual da Paraíba (PPGDR/UEPB), pesquisa sobre assentamentos precários, planejamento urbano e gestão do espaço. Integra o Observatório das Metrópoles – Núcleo Paraíba e o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Urbano (GEUR), que investiga dinâmicas urbanas e políticas do espaço nas cidades paraibanas. E-mail: andrade.aline@aluno.uepb.edu.br

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