CAJUCULTURA NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE. PRIMEIROS APONTAMENTOS

A discussão sobre o papel da agricultura familiar no desenvolvimento do Nordeste tem adquirido maior presença na mídia, nas políticas públicas, nas agendas dos movimentos sociais e nas práticas cotidianas das comunidades rurais, especialmente pela valorização de atividades produtivas vinculadas às condições territoriais. Nesse contexto, a produção endógena assume relevância por estar associada a tradições agrícolas já consolidadas, a solos e climas compatíveis com determinadas culturas e ao conhecimento acumulado pelos produtores ao longo do tempo. A assistência rural, a estruturação da cadeia produtiva e comercial, a atuação de associações, cooperativas e lideranças locais fortalecem esse processo, pois ampliam a capacidade de organização econômica e social em territórios nos quais a produção agrícola sustenta parte expressiva da renda comunitária.

Desde o documento do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste, intitulado Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste, coordenado por Celso Furtado e vinculado à criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), consolidou-se a necessidade de compatibilizar a produção agrícola com as condições do território das secas e com o abastecimento dos mercados regionais. A partir de meados da década de 1990, a promoção da agroecologia e da agricultura familiar ampliou essa orientação ao incentivar a produção local também voltada à inserção em mercados importadores. Esse movimento foi reforçado pela inclusão de produtos territoriais no mapa das Indicações Geográficas (IG) do Brasil, processo em que o caju passou a ocupar posição relevante, especialmente após o município potiguar de Serra do Mel conquistar, em 2025, a primeira IG da cajucultura na modalidade Indicação de Procedência.

O cajueiro é uma espécie endêmica do Nordeste brasileiro e constitui um dos pilares da economia regional, respondendo por 99,7% da produção nacional de castanha de caju em 2024, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024), com cerca de 143 estabelecimentos rurais dedicados à cajucultura no Brasil (IBGE, 2025). Conforme a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa, 2021), a região Nordeste possui área plantada superior a 650 mil hectares e responde por mais de 95% da produção nacional, com destaque para Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte e Bahia. A atividade também apresenta relevância ocupacional, pois gera aproximadamente 35 mil postos no campo, 15 mil na indústria e 250 mil empregos indiretos, articulando produção agrícola, beneficiamento e circulação comercial.

A colheita do caju ocorre na entressafra de culturas tradicionais, como milho, feijão e algodão, o que amplia sua importância para a renda das famílias rurais em um período de maior fragilidade econômica (Embrapa, 2021). Essa temporalidade produtiva contribui para a permanência da população no meio rural, dinamiza o comércio local e fortalece a participação de pequenos agricultores familiares em diferentes circuitos de comercialização. Nesse processo, pequenas cooperativas ampliam a capacidade de organização coletiva, favorecem o acesso a mercados institucionais e possibilitam a inserção em mercados externos, especialmente quando associadas a estratégias de beneficiamento, padronização e agregação de valor.

Segundo o IBGE, em 2024, o valor da produção de caju foi de R$ 689.335.000 no Brasil, dos quais R$ 687.577.000 corresponderam aos estados do Nordeste. No ranking regional, destacaram-se Ceará, com R$ 472.049.000; Rio Grande do Norte, com R$ 95.655.000; Piauí, com R$ 82.175.000; Bahia, com R$ 11.924.000; Pernambuco, com R$ 9.918.000; Maranhão, com R$ 8.799.000; Alagoas, com R$ 5.191.000; e Paraíba, com R$ 1.866.000. Fora do Nordeste, apareceram Pará, com R$ 1.533.000; Mato Grosso, com R$ 220.000; e Tocantins, com R$ 6.000, indicando forte concentração regional da atividade.

Conforme Brasil (2025), a comercialização da castanha de caju apresentou elevação dos preços pagos ao produtor nos principais estados nordestinos. No Ceará, o valor médio alcançou R$ 4,58/kg, com aumento mensal de 3,4% e anual de 14,5%; no Piauí, chegou a R$ 4,24/kg, com alta de 12,2% no mês e 1,0% no ano; no Rio Grande do Norte, atingiu R$ 5,37/kg, com avanço de 10,5% frente ao mês anterior e de 14,5% em relação a 2024. A produção nacional foi estimada em 135,9 mil toneladas, com redução de 15,6% diante do ano anterior, em um cenário marcado por ampliação da área colhida e queda da produtividade.

Na estimativa de 2025, o Ceará permaneceu como principal produtor nacional, com 83,1 mil toneladas e 61,7% da produção brasileira, seguido pelo Rio Grande do Norte, com 27,1 mil toneladas e 20,0% do total, enquanto o Piauí apareceu na terceira posição, com 14,5 mil toneladas e 10,7%. Em conjunto, esses três estados concentraram 92,4% da produção nacional estimada, enquanto a região Nordeste respondeu por 99,4% do total previsto para o ano (Brasil, 2025). Esses dados mantêm coerência com a concentração histórica da cajucultura no semiárido nordestino e evidenciam a dependência do desempenho produtivo nacional em relação aos principais polos regionais.

As exportações brasileiras de castanha de caju beneficiada totalizaram 10,1 mil toneladas entre janeiro e novembro de 2025, com crescimento de 47,2% frente a 2024, receita de US$ 66,0 milhões em Valor Livre a Bordo (FOB), aumento de 67,0% e preço médio de US$ 6,57/kg (Brasil, 2025). Estados Unidos, Egito e Argentina concentraram 53,4% da quantidade exportada e 52,1% do valor comercializado, indicando elevada participação de poucos destinos na pauta externa. No mesmo período, as importações somaram 2,1 mil toneladas, com queda de 61,7%, valor de US$ 7,73 milhões em Custo, Seguro e Frete (CIF) e preço médio de US$ 3,55/kg.

As exportações de castanha de caju com casca também registraram expansão em 2025, alcançando US$ 4,9 milhões FOB entre janeiro e novembro, com predominância do Ceará como origem e de Gana como destino (Brasil, 2025). Como a fonte apresenta divergência interna entre o dado textual e o quadro estatístico referente à quantidade exportada, mantém-se apenas o valor financeiro informado, preservando a consistência dos dados apresentados. No mesmo período, não houve importação de castanha de caju com casca, o que reforça a posição do produto como item de saída comercial em sua forma primária.

Tabela 1. Produção de caju no Nordeste por estados

EstadoValor da produção (R$)Quantidade (Ton.)Área (hectare)Rendimento médio por hectareEstabelecimentos (2017)Maior produtorPreço pago ao produtor (R$/kg) Nov./2025Receita estimada ao produtor (R$)
Brasil689.335.000159.212450.23735453.504Ceará5,21829.194.520,00
Nordeste687.577.000158.519449.23135352.046Ceará5,21825.883.990,00
Ceará472.049.00083.096286.33529325.430Bela Cruz4,58380.979.680,00
Rio Grande do Norte95.655.00027.47781.1643354.331Serra do Mel5,37147.551.490,00
Piauí82.175.00014.53277.05918912.070Pio IX4,2461.615.680,00
Bahia11.924.0003.29615.8152084.933Cícero Dantas4,4914.799.040,00
Pernambuco9.918.0003.1262.2801.371815Buíque4,9315.411.180,00
Maranhão8.799.0002.8938.1463553.341São Amaro do Maranhão4,6113.336.730,00
Alagoas5.191.0009216281.46762Olho d’Água das Flores5,034.632.630,00
Paraíba1.866.0004882.0852341.064Picuí4,412.152.080,00

A Tabela 1 reúne o valor da produção, a quantidade em toneladas, a área ocupada, o rendimento médio por hectare, o número de estabelecimentos com base no Censo Agropecuário de 2017 (INE, 2017) e o município de maior destaque em cada estado.

Na Paraíba, o município indicado é Picuí. Considerando o valor em reais obtido pelos municípios paraibanos com a produção de caju, destacam-se Picuí, com R$ 120.000; Jacaraú, com R$ 116.000; Cuité, com R$ 114.000; Teixeira, com R$ 84.000; Maturéia, com R$ 80.000; e Junco do Seridó, com R$ 60.000. A média de rendimento por hectare nos estados de Alagoas e Pernambuco não foi confirmada.

Figura 2. Mapa – Castanha-de-caju (cultivo) – Valor da produção (Mil Reais), no Estado da Paraíba

O processamento do caju origina dois produtos estratégicos para o desenvolvimento do Nordeste: a castanha e o pedúnculo. A castanha é convertida em amêndoa para venda e também pode ser utilizada na fabricação de cremes e outros produtos de beleza de origem vegetal. O pedúnculo, por sua vez, é comercializado como fruto e empregado na produção de sucos, doces, polpas e bebidas fermentadas. Essa dupla destinação amplia as possibilidades de agregação de valor, diversifica o aproveitamento da matéria-prima e fortalece a cadeia produtiva em diferentes escalas de beneficiamento e comercialização.

Apesar desse impulso econômico, o setor enfrenta gargalos associados ao predomínio de minifúndios e pequenas propriedades familiares (IBGE, 2025). Parte expressiva dos produtores pertence à faixa etária acima de 50 anos, o que suscita questões relacionadas à sucessão familiar na atividade. O censo também indica baixo nível de escolaridade, concentrado no ensino fundamental incompleto, condição que dificulta a incorporação de conhecimentos técnicos e gerenciais. Esse contexto amplia a dependência de canais informais de comercialização e de atravessadores, reduzindo a renda apropriada pelos produtores.

O beneficiamento artesanal da castanha apresenta riscos à saúde, pois a quebra do produto costuma recorrer à queima direta em chapas superaquecidas, processo no qual o Líquido da Casca da Castanha de Caju (LCC) é liberado em forma de fumaça tóxica e óleo fervente. Nessa atividade, trabalhadores sofrem queimaduras químicas severas nas mãos, braços e rostos, dermatites de contato crônicas e ulcerações na pele. A inalação contínua dos vapores gerados durante a queima também afeta o sistema respiratório, podendo originar bronquite crônica, asma ocupacional e fibrose pulmonar progressiva (Da Rocha et al., 2016; Brito et al., 2021).

Do ponto de vista do desenvolvimento regional, a cadeia enfrenta ainda o envelhecimento dos pomares, cuja substituição ocorre de forma lenta em razão da escassez de linhas de crédito desburocratizadas e da assistência técnica contínua (Embrapa, 2021). A variabilidade climática regional, marcada por longos períodos de seca, reduz a produtividade e intensifica a vulnerabilidade dos agricultores familiares. Diversas pragas também afetam os plantios e exigem manejo técnico, frequentemente inacessível aos produtores por falta de conhecimento especializado ou de capital para financiamento. A cadeia da cajucultura reúne limitações produtivas, sociais e sanitárias, preservando relevância econômica pela geração de renda sazonal, pelo aproveitamento das propriedades nutricionais do caju e por sua importância para o semiárido.

REFERÊNCIAS

BRAINER, M. S. C. P.; VIDAL, M. F. Cajucultura nordestina em recuperação. Caderno Setorial ETENE, Banco do Nordeste, ano 3, nº54, 2018.

BRASIL. MINISTÉRIO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO AGRICULTURA FAMILIAR (MDA); COMPANHIA NACIONAL ABASTECIMENTO (CONAB). Análise mensal: castanha de caju, novembro de 2025. Brasília, DF: CONAB, 2025.

BRAZIL. GRUPO DE TRABALHO PARA O DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE. Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional,1959.

BRITO, L. K.B. et al. Equipamentos de proteção individual e exposição ocupacional solar diante da saúde do trabalhador da cajucultura. Enfermagem Atual in Derme, v. 95, n. 36, 2021.

EMBRAPA. Caju. Fortaleza: Embrapa Agroindústria Tropical, 2022. Disponível em: https://www.embrapa.br/agencia-de-informacao-tecnologica/cultivos/caju. Acesso em: 30 de mai 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Agropecuário 2017. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Produção de Castanha-de-caju (cultivo), Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/explica/producao-agropecuaria/castanha-de-caju-cultivo/br. Acesso em: 30 mai 2016.

ROCHA, C. S. et al. Riscos socioambientais do beneficiamento da castanha de caju no povoado Carrilho-SE. Interfaces Científicas-Saúde e Ambiente, v. 4, n. 2, p. 9-18, 2016.


Tâmara Mirely Silveira Malaquias Timóteo é Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba, com objeto de pesquisa voltado à construção de indicadores de sustentabilidade na produção da cajucultura no município de Nova Floresta, Paraíba.. Email: proftamaratimoteo@gmail.com;

José Gomes Ferreira é Professor visitante do Programa de Pós-graduação em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e professor colaborador no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. Email: jose.ferreira@outlook.com.

1 comentário em “CAJUCULTURA NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE. PRIMEIROS APONTAMENTOS”

  1. Assusta-me o preço da castanha pago aos produtores, pois sabemos que o consumidor final paga,, em média, 70 reais no quilo. Uma distância muito grande. Algo precisa ser feito para mudar esta cruel realidade.

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